Capitulo 2 - Beija Flor

Foi no Beija Flor que comecei a estudar. Aprendi as primeiras letras numa escolhinha de interior, que fechou pouco tempo depois. Meus pais deram continuidade ao meu aprendizado com o livro “Nossa Pátria” ou “Nosso Brasil”, não me lembro do título correto.
Para ensinar matemática eles tinham uma tabela feita em cartolina, que era colocada em lugar estratégico para olhar e decorar. Também tinha um método japonês, para decorar as multiplicações, que até hoje lembro e uso quando preciso fazer alguma multiplicação. Ex: ni ni ga shi, ni sam ga roku, etc. Meus pais também me ensinaram um pouco do idioma japonês. Até os 15 anos eu conseguia ler e escrever alguma coisa. Com o passar dos anos e a falta de uso, terminei esquecendo tudo.
Fomos criados livres, sem medo ou preocupações com a violência. Podíamos brincar bastante. Durante a manhã estudávamos em casa e à tarde nossa obrigação era varrer e passar pano molhado no assoalho dos quartos. No resto do dia vivíamos na beira do rio ou no mato. A água era nosso ambiente e as canoas nosso meio de transporte.
As árvores como ingazeiros, curuminzeiros, goiabeiras, mangueiras e muitas outras que não me lembro o nome, serviam para nos fornecer as frutas que comíamos com abundância. O ingá dessa região é de uma outra variedade, é bem menor. Uma frutinha que comíamos e apreciávamos bastante, principalmente na época do plantio da juta, era o camapu, uma planta herbácea, cujo nome técnico é physalis sp. Essa frutinha hoje é comercializada como fruta exótica e tem alto valor comercial.
Essas árvores crescem em várzeas e, na época da cheia, ficam dentro da água. Algumas, como ingazeiros e curuminzeiros, eram as nossas preferidas para as brincadeiras porque são resistentes, não se quebram com facilidade e não são altas. O taperebazeiro não servia porque era muito quebradiço. Nossas brincadeiras consistiam em subir, passar de um galho para outro, ficar pendurado e cair na água. As vezes pulávamos de galho em galho, como macacos. Era muito divertido.

