quinta-feira, outubro 06, 2005

Capítulo 1 - O veleiro



Em 2003 comecei a montar um veleiro, desses que compramos em fascículos na banca, o S. João Batista, uma réplica dos galeões que navegaram nos mares da Europa no século XVII. Enquanto montava o veleiro lembrei que, quando era criança, costumava construir brinquedos para mim e para os meus irmãos.

Fiquei pensando nisso, relembrando essa época da minha infância, e tive a idéia de escrever as minhas lembranças, passar para o papel tudo que minha memória conseguisse lembrar. Seria uma bela maneira de exercitar a memória e deixar tudo registrado.

Nasci em 1935, num belo dia de setembro e não em outubro como consta em meus documentos, num lugar chamado Uaicurapá, no interior de Parintins, no Estado do Amazonas. Segundo minha mãe, Chiyoko, fui uma criança esperta, sadia e muito amada. Sou o primeiro dos nove filhos.

Minha mãe conta que quando ainda mal sabia andar eu era muito esperto e não gostava que pegassem na minha mão para caminhar, eu dizia que podia andar sozinho, sem ajuda. Algumas vezes eu acompanhava o papai em seus contatos comerciais ou quando ele saia para conversar com os amigos. Na ida ia caminhando faceiro e prosa, mas na volta vinha dormindo e carregado pelo papai.

Mamãe é enfermeira formada no Japão e especializada em partos. Todos os seus filhos nasceram em casa e com assistência do papai. Ela ajudou no nascimento de muitas crianças nos lugares onde morava e, às vezes, até à noite era chamada para atender uma parturiente.

Moramos alguns anos em Uaicurapá, onde nasceu também o Yuji, o segundo filho. Um tempo depois o tio Azuma, irmão do papai, também veio do Japão. Quando eu estava com três anos, nos mudamos para S. Benedito, ainda do Estado do Amazonas, onde nasceu o Eduardo.

Ficamos apenas um ano nesse lugar pois meus pais conseguiram um bom terreno na ilha do Touro, no município de Juruti Novo, Estado do Pará, num lugar que recebeu o nome de Beija Flor. Foi onde nasceram os outros filhos: Togo, Adercy, Roberto, Iracema, Fernando e Terezinha. O tio Azuma e a família continuaram em S. Benedito.

No Beija Flor o terreno era de várzea e quase virgem. Papai teve que desmatar, queimar e preparar o solo para o plantio de juta. Hoje essa parte da Ilha do Touro não existe mais. A força do rio Amazonas derrubou tudo e mudou completamente a geografia dessa região.