Capítulo 4 - Gado

A criação do gado bovino era uma outra atividade que também fazia parte da nossa infância. Vivíamos no meio do gado, dentro do curral, lançando ou tocando os bezerros para o chiqueiro (área cercada para os bezerros), onde ficavam durante a noite. Pela manhã depois da ordenha, todos os animais eram soltos para que pudessem procurar boas pastagens.
Feliciano era vaqueiro. Ele trabalhou para o papai durante muitos anos, conhecia muito bem a baiada, o estado de saúde dos animais, época da cruza, de parir, etc.
Todo dia o vaqueiro ia procurar o gado e trazer para o curral. Nessa busca, eu e o Yuji acompanhávamos o Feliciano, que sabia onde o gado deveria estar. O gado normalmente ia à procura da melhor pastagem natural que era abundante nas proximidades dos lagos e dos pequenos rios. O Yuji era um ajudante de vaqueiro muito competente e gostava de cuidar do gado, sabia lançar muito bem e com destreza.
Na várzea não era possível criar muitas rezes, a quantidade era limitada pela capacidade da pastagem. Quando a enchente não era muito grande e a quantidade de gado não era muita, fazia-se as marombas, uma área cercada acima do nível da cheia, onde se colocávamos animais durante a noite. Nesse período é preciso procurar e cortar capim para dar aos animais pois o pasto natural se torna escasso.
Para se ter uma boa fazenda de gado, era preciso ter um bom pasto na terra firme e também embarcação para fazer o transporte desses animais. Quando as águas do rio Amazonas cobrem as terras de várzea, transporta-se o gado para terra firme. Quando as águas descem o serviço de transporte é o inverso, trazer o gado da terra firme para a várzea.

Lembro muito bem de um fato que observei quando íamos procurar o gado e, passando por uma área onde existia um monte de terra coberto com capim, próximo da água, um jacaré enorme urrou bem perto, dando-nos um grande susto. Só então vimos que esse monte de capim era um ninho de jacaré. Ele estava bem perto para proteger os seus ovos. Não mexemos com ele, simplesmente olhamos e depois fomos embora. Foi a primeira vez que vi um jacaré protegendo a sua ninhada.
Lembro também que na época de seca as lagoas pequenas ficam rasas e formam um lamaçal. Nesse lamaçal se escondem os jacarés que conhecíamos por jacaré tinga, são menores, porém bastante velozes. Nós íamos com um pedaço de pau cutucando a lama e muitas vezes encontrávamos com esses jacarés. Na lama não atacavam a gente, eles fugiam à procura de novos esconderijos. Eles não eram caçados porque suas peles tinham pouco valor comercial.

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